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quarta-feira, 15 de maio de 2013

O Prólogo


Mais uma manhã se inicia. 6h40. Luto pra abrir os olhos e sair da cama. Em outros carnavais, neste horário já estaria do outro lado da cidade, entrando numa sala fria de tutoria. E eu devia mesmo estar do outro lado da cidade, me preparando pra pegar no batente, ou melhor, pra pegar o plantão. Penso nos pés de galinha adquiridos durante esses 4 anos e chego a conclusão que é muito cedo pra me estressar. É bem melhor já preparar meu psicológico pro que vem. 
Atrasada, em tempo recorde junto minhas tralhas, pego meu jaleco amassado, dou um trato bem meia boca no cabelo e tento esconder a falta de coragem com um pouco de blush perolado.
7h00. Saindo de casa ofegante, me esforço pra alcançar o ônibus e quem sabe eu ainda consiga fazer o trajeto casa-faculdade em 20 min. FAIL. Talvez de carro eu conseguisse, mas como boa estagiotária que sou, ando de ônibus e, venhamos e convenhamos, nessa cidade em horário de pico, nada é rápido. E falando em horário de pico, vejo 4 ônibus passarem por mim reto, como se eu fosse enfeite do ponto ou invisível.
Finalmente, um ônibus pára. Respiro fundo e tento garantir meu pedaço na lata de sardinha. Sigo assim até o terminal, onde troco 6 por meia dúzia: abandono a lata e corro pra ambulância (o ônibus que vai pra faculdade-hospital escola, carinhosamente apelidado de ambulância, vide a população que o frequenta: pacientes do HEscola, idosos, enfermos e estagiotários). Ainda em pé, continuo minha jornada.
Chego a faculdade as 7h40. Droga. O trajeto que na minha cabeça planejei realizar em 20 min., fiz em 40 min. Mais um dia atrasada. Ainda é muito cedo pra se estressar, então, cabeça erguida, vamos para o campo de batalha (mas antes, um pouco de cafeína).
Entre um cafézinho e outro, 8h00. Chego no setor como se nada tivesse acontecido. Uma cara de paisagem, um sorriso de Kate Middleton (como se eu fosse uma lady, descabelada, amassada e que anda de ônibus).
Começando a arregaçar as mangas, vou então cumprir minhas atividades de quartoanista. O que temos pra hoje? Visita na clínica e históricos a preencher. Pff. Fichinha, já que desde o começo do ano é minha rotina.
De cara, me desvio dos meus afazeres. Encontrei uma irrigação vesical obstruída. Como quase enfermeira, preparo a munição: de um lado, minha seringa (rara no setor) 60 ml e do outro meu frasco de SF 0,9% de 1000 ml. Assim, começo minha saga contra os coágulos - que na minha cabeça é algo do tipo “O império contra-ataca: a ameaça dos coagulos”.
Perdi a guerra. Minhas injeções de soro não foram páreas para le coagulo monstro. E ainda por cima sai pior do que quando entrei no quarto. Muito mais descabelada e dessa vez, acredito que nem o blush corava mais nada.
Como se não bastasse, dei de cara um um residenteotário
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Pra você, ledo leitor, residenteótario é uma raça distante dos estágiotários. Enquanto os estágiotários estão descabelados, amassados e acabados, como se tivessem saído de um episódio de The Walking Dead, os residenteotários são totalmente o contrário: Estão sempre arrumados, são lindos de morrer, esbanjam ryqueza, só que na hora de abrir a boca falta educação; Sem contar, que na cadeia alimentar do Hospital escola, eles são como os estágiotários, só que a nível de Hipócrates, nada de especial.
Voltando pra minha vivência, dei de cara um um dos residenteotários, que não esboçou palavra alguma, mas também, a cara de espanto dele ao me ver já falava mais do que o Galvão Bueno narrando a Fórmula 1. Fiquei na dúvida se a cara de espanto foi pelo meu estado ou se foi pelo escândalo que o paciente fez pela obstrução (sei que a dor do outro não se meça, mas pohan… homem é MUITO fraco!).
Sai a francesa e caminhei para o posto, onde foquei em terminar minhas atividades. Não sei se é meu desgaste ou ansiedade, só sei que não via a hora de terminar tudo (talvez porque 1) eu estava jogada as traças, pois minhas parceiras voltaram para a UBS, 2) porque eu estava cansada, já que falta 1 semana pra terminar esse estágio OU 3) o posto estava lotado de estágiotários de uma escola técnica). 
Diante ao desanimo, resolvi fazer um break. Zarpei pra UTIPed. Contactuei um pouco e voltei (apesar de acolhedor, não posso ficar em setores com crianças mimimi. Essa é minha kryptonita). 
Finalizei meu expediente e parti pra 2ª parte (porque 12hs é fichinha).
O que seria da vida dos estágiotários sem outros estágiotários pra partilhar as depressões? =D Por isso me encontrei com mais duas pra almoçar! E então pude me livar um pouco do peso das minhas olheiras  .
Entre constatações de fatos, planos mirabolantes, espiadas compridas na mesa ao lado e muita coca-cola, chegamos as 13h.
13h… Correndo pro 2º plantão. Mais light, of course, já que era atividade extracurricular, mas nem por isso menos importante.
Após decidir com minha dupla sobre qual cirurgia assistir, optamos por uma de varizes (pois meu DNA grita, e como eu vou ter que fazer uma safenectomia daqui a alguns anos, melhor já me inteirar sobre como vai ser feito). 
Adentrando a sala, dou de cara com le residenteotário (sim! o mesmo que eu encontrei descabelada logo de manhã). Nessa altura do campeonato, nem me sinto no direito de querer enfiar minha cabeça debaixo da terra (e também, de privativo, com todos os EPIs possíveis e imagináveis, nem precisava de esforço pra sumir).
Permaneci eu, firme e forte, durante 3 hrs assistindo a cirurgia, ao lado do R.Otário, que provavelvente nem me reconheceu e muito menos vai lembrar que eu existo amanhã.
Jardinagem a parte, deixando os vasos de lado, no termino do procedimento, eu e minha dupla aguardamos a uma cirurgia ortopédica.
Como gosto de CC, dificilmente me impressiono com o que vejo. Hoje, me impressionei. Nunca tinha visto tão de perto a colocação de um fixador. Tenho que admitir que tive alguns calafrios e ideias de assassinato em massa.
Tudo era como uma mistura de Jogos Mortais com 50 Tons de Cinza (se isso é humanamente possível).
Ideias esdrúxulas a parte, terminei mais um plantão.
E lá se vai a estágiotária, feliz da vida porque apesar de tudo, aprendeu muito. 
E daqui a pouco, um novo dia vem e tudo começa de novo.