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quarta-feira, 10 de julho de 2013

Cap. X - Choque de Realidade



Ansiedade. Epinefrina e Noraepnefrina sendo secretadas. Por trás do brilho no olhar, pupilas dilatadas. Frequência cardíaca, força de contração do coração e pressão arterial aumentadas, além dos vasos sanguíneos dilatados de tal forma que a cada bulha é possível sentir todo o trajeto do sangue sendo ejetado para a aorta e percorrendo todas as artérias, arteríolas, capilares, vênulas, veias, até finalmente fluir para o tronco pulmonar. Respiração intensa, taquipnéia. Alto nível de glicose no sangue. Sudorese de extremidades. Pensamento acelerado. Aceleradissimo.
Após horas e horas dentro de um carro numa viagem inter estadual, pude sentir cada uma das caracteristicas parassimpáticas, e na medida em que me aproximavaao meu (tão) esperado destino, minhas emoções pareciam ampliadas. 
Triplicadas talvez.



Lembro de ter sentido a mesma coisa na primeira vez em que pisei no Campus da PUC. Era tudo tão envolvente que instantaneamente me apaixonei por cada metro quadrado da Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde. A ideia de estudar naquele lugar era fascinante!
E suprindo esse sentimento, fiquei por meses aguardando a chance de prestar vestibular e mais ansiosa ainda pelo resultado. Afinal de contas, era a realização de um sonho - não só meu, mas dos meus pais também.
Logo numa da tutorias no primeiro ano do curso de enfermagem, uma das atividades propostas, ou melhor, um OBJETIVO de aprendizagem, foi pesquisar sobre o leque de oportunidades que temos na enfermagem após a graduação.
Em especial, uma oportunidade me chamou atenção. A possibilidade de ingressar em um programa de residência. Mesmo não sendo o caminho mais fácil, não me importei. Meus olhos brilharam e comecei a ter devaneios sobre esta possibilidade.
Naquele mesmo momento tracei um plano - master - de ação: Me formando, vou atrás do meu lugar ao foco de luz (nem que esse foco de luz seja no Acre!).
Com o passar dos anos e avançar da graduação fui afinando meu leque de possibilidades ( de cara descartei obstetrícia, pediatria e coisas do tipo) e após estágios e mais estágios cheguei a conclusão que meu lugar é centro cirúrgico/clínica cirurgia, pra ser mais precisa, meu foco de luz está totalmente voltado pra enfermagem perioperatória.
Enfim, retomando meu ponto de partida, de todas as instituições que eu já pesquisei e conheci, nenhuma me chamou tanta atenção quanto a Estadual de Londrina.
Pra ser exata, minha paixonite pela UEL aumentou (muito) no ultimo ano de faculdade e a cada dia que passa minha ansiedade pra participar do processo seletivo aumenta. 
Pois é. Só 4 vagas no programa de Enfermagem Perioperatória. Se Deus quiser, uma é minha.
Na última segunda-feira fui pra Londrina, afim de conhecer a UEL. Revivi cada sentimento da primeira vez que pisei na PUC. 
No fundo pensei comigo: Agora falta pouco. Muito pouco. Pouquissímo.
Daqui a 5 meses me formo. Daqui a 5 meses 4 anos de esforço se transformaram num número mágico (e bem carinho) que vai me possibilitar exercer minha profissão. Daqui a 5 meses, deixo de ser estudante e passo a ser ENFERMEIRA
E como enfermeira, é meu dever prestar a melhor assistência possível pra quem precisa. Isso - é claro - necessita de aprimoramento. Aprimoramento que eu almejo alcançar a quase 600 km da minha casa, da minha família, das pessoas que eu amo. 
São só 2 anos. 2 anos que eu acredito que vão mudar minha vida, pra que eu mude a vida de muitas outras pessoas.
Nem tudo sai como planejamos, e as vezes por caminhos mais tortos do que veias varicosas nós acabamos seguindo outro caminho. 
De qualquer forma, a descarga de adrenalina tem me servido bem nos últimos meses - e mais ainda nos últimos dias.
Me apaixonei por Londrina. Mas sei que pela frente ainda tem muito chão. Não me importa pra onde a safena varicosa da vida me leve, não vou desistir de ser uma enfermeira melhor.  



quinta-feira, 23 de maio de 2013

Cap. VII - Abandonada

Depois de altas emoções (comentadas aqui) com o final do estágio supervisionado, finalmente, chega o estágio eletivo. Então, com a cara e com a coragem, você vai até o setor se apresentar e... ninguém.
Exatamente. Esqueceram que tinha uma estágiotária pra começar suas atividades hoje.


Imediatamente pensei em correr pro meu antigo setor, meu PS, minha montanha-russa onde picos de amor e ódio se intercalavam. Fiz isso? NÃO! Simplismente porque estágiario não tem "day-off".
Não é porque esqueceram da estágiotária que a mesma não vai ter nada pra fazer. Como vocês estão cansados de saber e como eu repito isso diariamente como um mantra, só faltam 7 MESES para formatura.
Consequentemente, só me formo se entregar meu trabalho de conclusão de curso, o famoso e maldito TCC.
Por ironia do destino (ironia nada!), no ano passado (quando a via sacra começou), fui orientada a realizar minhas pesquisas no outro Hospital Escola (que é 100% da faculdade, portanto tem uma dinâmica de trabalho muito diferente da que eu vivenciei no PS do Hospital Escola Público, que mantém convênio com minha faculdade).
Resultado: não basta perder a viagem e 5 horas de estágio (*lágrimas), tem que deslocar o corpinho e ir pra outro hospital.
Como tenho noção de que meu TCC não vai brotar do subsolo e muito menos aparecer pronto, como uma irrigação obstruída nos últimos 5 min. de estágio,  dei uma boa respirada e peguei meu caminho da roça.
Com uma pilha de papéis embaixo do braço e cara de tacho, fui eu apertar a campainha do CME do HEscola.
Ao ser atendida (diga-se de passagem muito bem, comparando com várias saias-justas que estágiotários relatam), entrei por uma porta estreita para ter acesso a CME.
Recebi um privativo na mão literalmente (!), coisa rara de acontecer já que em setores fechados sempre falta o privativo. E a melhor parte nem foi receber de mão beijada a roupinha verde desbotada, mas sim descobrir que o privativo P serve em mim! ♥
Podem falar o que quiser, eu acho um charme usar privativo, ainda mais quando ele cai como uma luva em você. Prefiro andar de verde do que enfrentar o branco nada profissional todo dia.
Continuando minha saga, depois de morfar, fui pro que realmente interessava: A coleta de dados para o TCC, que já está pela hora da morte, uma vez que já tentei deixar pra depois de todas as formas possíveis e imagináveis.
Não demorou muito pra descobrir que meu questionário tinha um erro que surgiu das profundezas, o que me fez anular uma questão.
Anyway, independente de erros, meu foco eram os funcionários (eram não, são). Ao realizar as entrevistas, fiquei um pouco desapontada. Vou ser franca, esperava um pouco mais de discórdia. Vai ver porque no lugar onde eu estava isso era "comum". Comum VÍRGULA. Não era pra ser, mas não vamos nos meter no expurgo alheio.
Vi que meu trabalho de meses foi resumido em menos de 5 minutos, pois todos os funcionários tinham todas as respostas na ponta da língua. Fiquei impressionada pois, mesmo realizando entrevistas individuais, as respostas eram as mesmas, sem tirar nem por nenhum Bowie Dick.
Depois de aproximadamente 1hr, agradeci e sai do setor. Foi difícil me desfazer daquele privativo ♥. Mas eu superei. Afinal, se eu pretendo ter um privativo ala Addison Montgomery, preciso me formar certo?






quinta-feira, 16 de maio de 2013

Cap. II - E como doí!



Tem dias que ao encostar a ponta distal do hálux no chão a gente já percebe que não é nosso dia. Então, você abre o portão pra sair de casa, se direciona até o ponto de ônibus e tem a confirmação de que não é seu dia: Acabaram-se os vale-transporte. Mesmo com os sinais, você não dessiste, afinal de contas, faltam apenas 4 dias pro seu estágio supervisonado terminar e também porque você já está com a corda no pescoço por conta de tanta falta. Chegando no setor, você é surpreendido novamente e descobre que seguirá vôo solo hoje, em outras palavras, você se ferrou e tem que evoluir a clínica sozinho pois sua dupla está de atestado (nada contra duplas e atestados, que fique BEM claro). 
Você, estagiotário, amigo de fé e irmão camarada separa seu material de estágio, abre todos os SAEs do setor, passa visita em todos os quartos, preenche com toda atenção do mundo os indicadores, realiza entrevista e exame físico seguindo todos os pormenores da Alba e ainda por cima vai abraçando o que aparecer: sondagem, gasometria, curativo, irrigação contínua, dreno de tórax... resumindo, você é tipo uma enfermeira "Amélia".
Depois de ter salvo o mundo, você como estagiotário que presta atenção nas tutorias/aulas de ética profissional, se dirige ao posto e começa a psicografar tudo o que fez.
E você escreve, escreve, escreve... larga tudo porque o telefone da clínica toca... volta e escreve, escreve... vai no quarto Y porque o soro da irrigação do paciente X parou... volta e escreve mais um pouco... dai você se dá conta que esqueceu uma informação impoirtante e tem que procurar o prontuário do paciente pra continuar com suas anotações... depois de anos luz, você retorna ao seu lugar de origem, senta e contra o tempo termina suas anotações/evoluções.


Feliz da vida, você entrega ao seu tutor/professor/supervisor um resumo de suas atividades e está dispensado. SÓ QUE NÃO, OTÁRIO!
Das 13 evoluções, você esqueceu de especificar o local de inserção do acesso venoso do paciente em uma delas e na outra confundiu o urepen com SVD pois o hospital está usando o mesmo coletor de urina pra ambos os dispositivos. 
Correção? Pff... você leva uma cajadada e de brinde um sermão da montanha traduzido em aramaico e grego. Pra completar, o paciente que você fez o favor de inverter o tico com o teco está sob os cuidados daquele técnico mau amado que parece que tem prazer em encrencar com estágiotário e falar mau da propria categoria que é a enfermagem.

Eu sei, é a morte. E pra enfrentar esse período nebuloso de luto e voltar pro setor no dia seguinte sambando no recalque alheio com salto agulha 15, existe o Modelo de Kübler-Ross pra dar um "empurrãozinho" e passar por mais este vexame. 

1. Negação/Isolamento: Meu querido estagiotário(a), neste momento você vai negar mais do que qualquer coisa neste mundo que você esqueceu aquela vírgula ou então vai ficar mudo, sentado no canto mais escuro do posto, martelando aquela máxima "Isso não pode estar acontecendo, não comigo... Não faltando 5 minutos pra eu ir pra casa"



2. Raiva: Depois do isolamento causado pela negação, vem a raiva. Você vai sentir até sua 3ª bulha cardíaca e uma leve elevação das ondas QRS. "Não é justo, mimimi!". Neste momento, reclame o que quiser (mentalmente, porque você ainda é um estagiotário, portanto, um desempregado), desde que fique distante de objetos pontiagudos.


3. Negociação e dialogo: (ALERTA: VOCÊ AINDA NÃO SUPEROU O ESTÁGIO 2, NÃO TENTE FAZER ISSO CRIANÇA) Provavelmente, você vai tentar convencer seu superior de que você está certo. ERRADO. Em 98% das vezes em que um estagiotário leva um puxão de orelha é porque mereceu. Lembra dos colegas chatos que se acham os herdeiros do Guyton e gostavam de discutir resultados com os professores porque se achavam injustiçados? Bem, você vai se portar como um deles se tentar negociar algo que não tem fundamento. Cuidado!



4. Depressão: Provavelmente sua negociação não funcionou. Então você começa a pensar que tudo ruim só acontece com você, devaneia sobre como seria sua vida se tivesse escolhido engenharia ou algo do tipo. Até que você se lembrar que num passado não tão distante você passou por coisas piores. Tipo, MUITO PIORES. Semanas de provas, noites mau dormidas, portfolios insatisfatórios... E isso te remete a um futuro não tão distante também: Aonde estarei daqui a 7 meses? Diante desses fatos depressivos, você acaba se tocando que passou por coisas que também pareciam a morte e ainda vai ter que enfrentar problemas muito maiores do que este, e assim segue para o último estágio...


5. Aceitação:  Este é o momento em que você deixa de lado o mimimi e, como adulto, aceita que errou e que merecia a cajadada (por maior que seja a dor). Converse com seu tutor/professor/supervisor e tente entender seu erro pra que não aconteça de novo. Errar pode ser coisa de estagiário mas consertar os seus erros te faz um enfermeiro, ok?


Pronto! Agora que você já superou a dor da evolução/anotação riscada, levante a cabeça, respire fundo e tenha em mente que amanhã é um novo dia e o ciclo se reinicia. Seu setor te aguarda, estagiotário!