quinta-feira, 18 de julho de 2013

Cap. XII - Reality Bites

Mais uma quinta-feira como outra qualquer dentro do Centro Cirúrgico. 
Cheguei um pouco atrasada como de costume e um pouco ofegante, depois de subir 3 andares de escada.
Feliz porque encontrei um privativo que, embora um pouco surrado, me servia perfeitamente.
Aguardando uma agenda cirúrgica lotada, tomei meu posto de estagiária, tomando nota de tudo, organizando todos os indicadores possíveis e imagináveis, registrando ocorrências, cirurgias, admitindo pacientes... Desejando ser uma espécie de Sheeva pra conseguir fazer tudo.
Acostumada com a demanda de cirurgias, esperei tudo. Menos o que estava por vir.
Eram aproximadamente 10h30 min quando uma técnica de enfermagem questionou minha supervisora sobre qual seria a próxima cirurgia para que ela pudesse arrumar a sala de operação conforme o procedimento.
Minha supervisora respondeu sem pestanejar que a sala deveria ser arrumada pra uma captação de órgãos. 
Como todo estágiario, curioso que só, parei de escutar em "captação de órgãos", enquanto meus olhos brilharam e imediatamente me prontifiquei a ajudar a TE a montar os equipamentos pra sala. 
Após terminado a preparação de sala, me sentei no posto de enfermagem e esperei. Esperei mais um pouco. Esperei...
Minha supervisora sentou-se ao meu lado e começou a comentar sobre o caso. Até então sabia que era um menino. Ainda assim, a emoção de assistir a uma captação estava a flor da pele. 
11h30 e nada de começar a cirurgia... 12h00 e nada... A enfermeira do turno da tarde já tinha chego pra pegar o plantão, e nenhum sinal de começar tal procedimento.
Pedi licença e fui almoçar. Como sempre, resolvi dar um pulo no meu setor antigo. Encontrei uma TE que conversava muito comigo durante o estágio. E conversamos um pouco. Pra ser mais exata, cerca de  20 min.
Tempo o suficiente para eu descer as escadas e me direcionar na entrada principal do hospital, rumo a saída.
Cada passo que eu dava em direção a porta de saída, dois homens com uma caixa grande se aproximavam. Eles pararam na recepção. Quando me aproximei deles, pude escutar a recepcionista dar a localização exata do Centro Cirúrgico. 
Me apressei, afinal, não vou deixar de ver tal procedimento. Não posso deixar essa oportunidade passar!
Engoli um salgado comprado na lanchonete em frente ao Hospital. Em menos de 5 minutos, tinha voltado pra recepção. Agora indo em direção ao Centro Cirúrgico, encontro minha chefe descendo, pronta pra ir embora.
Antes de me despedir, pergunto se os homens com as caixas grandes eram mesmo a equipe de transplante que vinha de São Paulo.  Ela me confirmou a informação e antes que eu falasse qualquer coisa, me disse de prontidão que talvez não fosse possível fazer o transplante.  Talvez. Mais uma vez, antes que eu perguntasse o por que, ela me disse que o paciente teve uma parada cardíaca. 
Subi as escadas correndo. Peguei um privativo horrendo, enorme e azul, que me deixava parecendo um personagem dos smurfs. 
Ao entrar no CC, encontrei a TE que estava cuidando da sala e perguntei se a captação já tinha começado. Ela, meio ofegante, respondeu positivamente. Foi minha deixa pra ir em direção a sala. Bem, não é todo dia que se vê uma captação. 
Já chegando na sala, vi muita gente. Reconheci de cara as enfermeiras da UTI pediátrica. Parecia que o hospital inteiro tinha pensado o mesmo que eu.
Naquele momento, me senti como se estivesse dentro de um roteiro de Shonda Rhymes.
O paciente era uma criança. Um menino de 11 anos. Uma queda de bicicleta que se resultou num TCE, evoluindo pra morte encefálica. Em cima dele uma anestesiologista tomando o posto de uma das enfermeiras da UTI para assumir as compressões. Ao mesmo tempo, todos os TE da sala e a enfermeira da SPOT (Serviço de Procura de Órgãos e Transplantes) se posicionaram ao lado da maca para passar a criança pra mesa de cirurgia. Imediatamente a TE responsável pela sala me chamou para ajudar. Eu fui. Naquele instante pude olhar bem pro rosto da criança. Entendi porque a enfermeira da UTI estava tão pra baixo. Meus olhos se encheram de água. Respirei fundo e fiquei no canto da sala, paralisada, apenas observando tudo ao meu redor. Quando o cirurgião pediu o bisturi pra instrumentadora, senti como se a lâmina estivesse passando pelo meu peito. Mesmo assim, assisti até o fim. A equipe só conseguiu resgatar os rins, por tudo o que a criança sofreu com a colisão, uso de drogas sedativas e a parada cardíaca. Depois a equipe do banco de olhos chegou, e retirou as córneas. Por fim, ajudei as TE, a arrumar a sala e preparar o corpo.
Tomei um pouco de ar, e como se estivesse saindo da guerra, peguei minhas coisas, me despedi da enfermeira da tarde e fui embora.
Me senti como a Meredith Grey, no episódio em que ela coloca a mão em uma bomba. Fiquei o dia inteiro me sentindo péssima, como se todos os cursos de capelania hospitalar que eu fiz não me trouxessem conforto nenhum aquele momento.
Life sucks. Sometimes.  Mas apesar dos baixos, eu sei que tenho uma missão de salvar vidas. 



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